Portugal no Euro, de Sousa a Éder

Kali Ma Mais 06/15/2020
Tovar FC

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Portugal no Euro, de Sousa a Éder

É hoje? Ya, dia 16 em Budapeste, arranque de Portugal no Euro-2020 com Bulgária, Hungria, Islândia, Geórgia, Bielorrússia, Macedónia ou Kosovo. Uffff. Um oceano de incertezas é o que é. Como se isso fosse pouco, toma lá um Covid para dar mesmo cabo do Euro. Afinal é só daqui a um ano, ouchhhhh. Seja como for, aqui seguem os nossos 49 golos na história dos Europeus, desde Sousa até Éder, ambos em França com uma distância de 32 anos

SOUSA ESPANHA 1984

Quem remata assim não é gago. A frase entra-nos pelos olhos, passe a expressão, através da RTP. É o primeiro momento sublime da nossa selecção em fases finais do Euro. O nulo da estreia com a RFA, em Estraburgo, obriga-nos a arriscar mais um pouco vs. Espanha, em Marselha. O onze de Cabrita não dá a entender isso, com o bibota d’ouro Gomes novamente no banco – ainda por cima, em dia de espionagem por parte do Milan nos seus serviços. Seja como for, Portugal e Espanha anulam-se na primeira parte. Após o intervalo, Chalana perde a paciência de estar colado às alas e vai para o meio. O homem recebe a bola e solta-a telepaticamente para Álvaro, seu companheiro de uma vida no Benfica. A correria do lateral pela linha tem um fim e é aí que a bola viaja para a entrada da área, onde está Sousa. O homem do pontapé forte, imagem de marca bem vincada no mês anterior com aquele golo à Juventus na final da Taça das Taças, pensa e executa. Na perfeição. A bola descreve um arco lindíssimo, sem hipótese para Arconada. É o 1-0, o do “quem remata assim não é gago”.

NENÉ ROMÉNIA 1984

Nem sempre um apagão é sinónimo de desnorte, desânimo. Basta uma voz para fazer-nos sorrir, meio incrédulos. Rebobinemos: dois jogos, dois empates. À terceira é de vez? Só pode, senão é fazer as malas e seguir para casa. Como não há voos directos de Nantes para Lisboa, resta-nos ganhar para sonhar mais uns dias. Na fabricação do onze, finalmente a ousadia de colar o portista Gomes ao sportinguista Jordão lá na frente. Nada feito, a bola não lhes chega. Aos 63’, ainda com o teimoso 0-0, Cabrita alarga o ataque com o benfiquista Nené. É ele o herói, na noite em que iguala Eusébio como o mais internacional de sempre (64). É canto para Portugal, na direita. Sousa marca-o ao primeiro poste, Bölöni (esse mesmo) afasta de cabeça. Sousa recolhe a bola e aproxima-se da área antes do cruzamento com o pé direito para o coração da área, onde, caaabuuuuummm, apagão. A voz do jornalista da RTP ouve-se claramente, a imagem é mentira. Quando esta reaparece, Nené já está a festejar ao seu estilo, sóbrio e isolado. O seu remate picado é história. Com agá grande.

JORDÃO FRANÇA 1984

O golo de Nené à Roménia a nove minutos do fim, aliado ao surpreendente 1-0 da Espanha à RFA em cima dos 90’, garante-nos o segundo lugar do grupo B. Se fosse o Euro-1980, iríamos para casa. Como estamos em 1984, apuramo-nos para as meias-finais. E voltamos a Marselha, onde empataramos com Espanha. Desta vez, é a anfitriã França daquele meio-campo de sonho com os quatro magníficos Giresse, Tigana, Fernández e Platini, responsáveis pelos nove golos até então no Euro. Para baralhar as contas, o 1-0 é do lateral-esquerdo Domergue, de livre directo. Cabe-nos responder à letra. Aos 74 minutos, uma bola do lateral-direito João Pinto cruza o campo todo até chegar ao lado oposto, onde Chalana recolhe, ajeita e centra, tudo com o pé esquerdo. Rui Jordão ainda nem conecta com a bola e já Battiston está de braços no ar, desesperado, como que a adivinhar o empate. O cabeceamento do sportinguista é sensacional (uma bola curva a fazer Bats embrulhar-se nas redes), o festejo, esse, é divinal. Dá para repetir?

JORDÃO FRANÇA 1984

Foi você que pediu um bis? Cá vai ele, em pleno prolongamento no Velódrome. O domínio é nosso, só para variar. Jaime Pacheco lateraliza para João Pinto e o cruzamento primoroso para a marca de penálti é alvo de uma entrada fulgurante de Nené, cujo cabeceamento é interceptado por Bats com uma aparatosa defesa de rins para canto. A bola viaja para aqui, ali e acolá antes de voltar a chegar ao corredor direito. É Sousa. Depois Frasco. Novamente Sousa. De repente, Chalana. O extremo vai para cima do lateral francês, simula cruzamento com o pé direito, a seguir um outro com o pé esquerdo e o pobre do Domergue já está nas covas, sem eira nem beira. Com espaço, finalmente, Chalana centra com o pé direito para o segundo poste e Jordão aplica o famoso remate picado. Bats é traído pela trajectória sui generis da bola, qual folha seca a entrar cirurgicamente na baliza. E lá vai Jordão, solto como nunca, num estilo muito seu, em bicos de pés, com o braço direito esticado para cima.

SÁ PINTO DINAMARCA 1996

Ai ai ai, isto começa mal, muito mal. Hélder, pressionado, atrasa para Baía e o capitão despacha de qualquer maneira, precisamente contra a cara do avançado dinamarquês Mikkel Beck. Por capricho, a bola vai parar direitinha aos pés do habilidoso Brian Laudrup, que entra na área, livra-se de Paulinho Santos e atira certeiro, de baixo para cima, perante a aproximação de Couto e o desnorte de Baía. Em desvantagem aos 22 minutos, Portugal procura o empate. Que aparece aos 53’, quando Paulo Sousa faz um tackle perfeito sobre Michael Laudrup e lança João Vieira Pinto. À sua frente, um sujeito alto, bruto, com pés de chumbo. Rieper, esse mesmo. O central corta-lhe os intentos pela raíz e a bola sobra para Folha, que substituíra Oceano ainda na primeira parte. Com Helveg à ilharga, o centro do portista é impecável para o coração da área, onde Sá Pinto dá uma cabeçada forte e colocada, sem hipótese para o desamparado Schmeichel, que se limita a assistir ao inevitável de joelhos no chão. Thats it, empatámos de novo com o campeão em título (RFA 0-0 em 1984).

COUTO TURQUIA 1996

De Sheffield para Nottingham, o xerife António Oliveira promove uma única alteração para atacarmos mais: Folha por Oceano. A primeira parte é entretida, com um sensacional slalom de Rui Costa, desaproveitado por Sá Pinto, e um falhanço clamoroso de Hélder, em fora-de-jogo não assinalado pelo húngaro Puhl. Na segunda parte, Portugal agiganta-se mais ainda e tem o seu prémio aos 66’. O canto da direita é curto, Figo para Rui Costa. O 10 vê Paulo Sousa solto à entrada da área e toma lá disto. O centro-remate do médio é interceptado atabalhoadamente por um turco e é Couto quem apanha a bola a jeito, ali à entrada da área, para atirar cheio de convicção. O remate com o pé esquerdo sai-lhe bem. Segue-se o inevitável salto mortal, imagem de marca de um central com os pés bem assentes no chão. Grita-se vitória a plenos pulmões e beija-se a bandeira, junto à linha lateral.

FIGO CROÁCIA 1996

Para quebrar o gelo (e até a monotonia de falhar o golo na primeira parte nos dois jogos anteriores), Portugal atira-se à Croácia como gato a bofe. O resultado é um feliz 2-0 ao intervalo. Logo aos 3’, Secretário intercepta um ataque contrário, passa o meio-campo e tabela com João Vieira Pinto. Mais solto que nunca, olha para o lado e faz um cruzamento com conta, peso e medida para o interior da área. Com todos os croatas apanhados em contrapé, e mais preocupado com Sá Pinto, a bola cai nos pés do ilustre número 20, um tal Figo. Com o suplente Mrmic a sair-se aos seus pés, o extremo do Barcelona ajeita com a barriga e faz um passe delicado para a baliza, com o pé direito, antes de sair para os festejos junto ao banco de suplentes, abraçado por Paulo Sousa. Nas bancadas do City Ground, em Nottingham, um treinador italiano chamado Fabio Capello observa a corrida do lateral-direito e aponta o nome de Secretário no seu bloco de notas. Uns dias depois, o Real Madrid haveria de contratá-lo.

JOÃO VIEIRA PINTO CROÁCIA 1996

A Croácia, já qualificada para os quartos-de-final, poupa alguns titulares neste terceiro e último jogo da fase de grupos. Portugal joga com o duplo 6 (Oceano e Paulo Sousa). Ou seja, o mesmo 11 da estreia, vs. Dinamarca. Aos 33 minutos, canto conquistado por Secretário, um dos homens do momento. Figo, sempre ele, marca-o para a grande área, onde Couto cabeceia ligeiramente desequilibrado, devido ao encosto de Pavlicic. Por isso mesmo, a bola sai torta, desviada do alvo. Apanha-a Sá Pinto, completamente desmarcado. O avançado é então autor de um acrobático pontapé de moinho para o limite da área, onde João Vieira Pinto recolhe, olha para a baliza e atira sem pressa com o pé direito, à saída do desemparado Mrmic. Caso (atenção, caso) JVP não estivesse lá, teríamos sempre Hélder em excelente posição para o 2-0.

DOMINGOS CROÁCIA 1996

Para a segunda parte, o excêntrico seleccionador Miroslav Blazevic lá faz entrar três titulares, entre Suker, Asanovic e Boban. A Croácia equilibra a balança, sim senhor, mas nada de mais. Com 2-0 no marcador, Portugal gere a vantagem com muita cabeça. E até a aumenta perto do fim, aos 81’. Pavlicic está livre de perigo, sem ninguém à sua volta, e quer desmarcar sabe-se lá quem. A bola bate na nuca de Bilic e ressalta para os pés de Domingos, recém-entrado para o lugar de Sá Pinto. O avançado galga uns metros isoladíssimo, entra na área a bel prazer e atira com o pé esquerdo, cruzado. A bola bate no poste direito de Mrmic e entra placidamente. É o 3-0 final e repete-se a cena do Euro-84: um golo do SCP (Jordão-Sá Pinto), outro do SLB (Nené-João Vieira Pinto) e mais um do FCP (Sousa-Domingos). O problema é o capítulo seguinte, em Birmingham, onde um chapéu de aba larga do checo Pobosky desfaz as nossas ilusões.

FIGO INGLATERRA 2000

É noite de Santo António, a festa está no ar. Scholes que o diga. Beckham cruza na perfeição e o 8 cabeceia para o 1-0. Começa mal isto. E piora. Beckham alimenta McManaman e 2-0 aos 18 minutos. Pelo meio, João Pinto falha o empate, de cabeça, e Rui Costa permite a defesa da tarde de Seaman. Two-nil, now what? Aos 22’, McManaman brinca na esquerda antes de servir Owen. O avançado escorrega e protesta com o árbitro, Jorge Costa limita-se a levantar os braços como quem está inocente. Vidigal recupera a bola e toca-a para Rui Costa, que descobre Figo no círculo do meio-campo. Dá um toque com o pé direito, outro com o pé esquerdo, ajeita com o pé direito, aproxima-se de Tony Adams e atira fortíssimo. Qualquer que seja o comentador (francês, turco ou argentino), o espanto é inevitável. A bola, que ainda bate ao de leve no pé de Adams, entra no ângulo superior. Seaman só se faz ao lance com os olhos. Outros nem isso. Figo vai buscar a bola ao fundo das redes, Eusébio aplaude-o. A táctica funciona em 1966 com a Coreia do Norte. E com a Inglaterra?

JOÃO VIEIRA PINTO INGLATERRA 2000

É noite de Santo António, a festa está no ar. Que o diga João Vieira Pinto, em divinal voo rasante, como só ele sabe. A jogada começa bem antes, lá atrás, antes do nosso meio-campo. Os ingleses andam atarantados com tanta troca de bola. Quer dizer, nem a vêem. É um pré tiki-taka, vá. De repente, Rui Costa. Abel Xavier. Paulo Bento. Rui Costa. Tudo num curto espaço de terreno, ali encostado à direita do nosso ataque. Insistimos, os ingleses não sabem o que fazer. Ainda hoje é assim: sem bola, é uma fragilidade inqualificável. Insistimos, Rui Costa. Do seu pé direito parte o cruzamento para o primeiro poste. Longe de ser o ideal, JVP adianta-se a Sol Campbell e atira-se de cabeça, metafórica e literalmente. O mergulho permite-lhe cabecear, ainda fora da área. As imagens seguintes variam entre o desalento de Seaman e os braços esvoaçantes de JVP na direcção de Rui Costa. É o empate, antes do intervalo. A segunda parte promete. Olá se promete.

NUNO GOMES INGLATERRA 2000

É noite de Santo António, a festa está no ar. Preparem os foguetes “masé”. Na televisão inglesa, o comentador Graeme Souness está em modo silencioso. Tudo o que diz na véspera não se confirma. João Vieira Pinto? “É um indivíduo com uma notável capacidade de fazer uns quantos ‘números’, mas que têm um rendimento quase nulo no fim de contas.” O que faz JVP? Mergulha para o 2-2, splashhhh. Rui Costa? “Apenas pode jogar naquela posição na selecção.” Qual? “A do sem responsabilidade, onde se faz pouco, não se recua para defender nem se recuperam bolas.” Nuno Gomes? “Tem uma rara habilidade para marcar golos em Portugal mas duvido da sua capacidade para ser um goleador na selecção. No Benfica, costuma estar no sítio certo, mas foge muito ao contacto. O Adams assustá-lo-á até à linha de meio-campo.” Funny, este Souness. Aos 59 minutos, Jorge Costa entrega mal para Couto. Apertado por Heskey, o central afasta de qualquer maneira, lá para a frente. JVP apanha a bola, perde-a para Wise e recupera-a no instante seguinte. Dá para Rui Costa. À dança de pernas segue-se um sprint para fugir a Ince. O passe é delicioso, a recepção de Nuno Gomes é meio golo. Quando o pobre Adams quer corrigir a posição, já o 3-2 está feito.

COSTINHA ROMÉNIA 2000

Outra vez? Yup, again. Já não nos basta a qualificação para ao Euro-2000 (derrota nas Antas, empate em Bucareste) como ainda temos de jogar com a Roménia na fase final? É isso mesmo, os planetas alinham-se de uma forma sui generis. Uma vitória em Arnhem garante-nos a qualificação imediata para os quartos-de-final. Da euforia do mediático 3-2 à Inglaterra até aos 93 minutos, pouco ou nada sobra desse Portugal. Os romenos fecham-se bem e também tratam a bola com categoria. Ou não fosse Hagi (re)conhecido como o Maradona dos Cárpatos. Bom, adiante. Aos 90’+3, Galca vai partir para o ataque, Costinha arranha-se todo para cortar a bola. Dimas escorrega e é lançamento lateral para eles. Inexplicavelmente, Contra atira a bola na direcção de Dimas. O lateral corta com o peito e Figo entrega para Sá Pinto, derrubado por Popescu. O árbitro Veissière apita falta, sem dar a lei da vantagem (Costinha isolara Dimas na esquerda). Nada feito, é livre. Figo marca-o para a molhada. Costinha, entrado aos 87’ por Rui Costa, antecipa-se a Stelea e sela a vitória mais o apuramento.

CONCEIÇÃO ALEMANHA 2000

Garantida a qualificação para os quartos-de-final, Humberto saca nove coelhos da cartola para o terceiro jogo da fase de grupos, com a Alemanha de Erich Ribbeck, no fio da navalha após empatar 1-1 com a Roménia e perder 1-0 vs. Inglaterra. Assim de repente, é o mundo ao contrário: os alemães precisam de uma vitória, os portugueses mais tranquilos que nunca. Daí que Humberto só mantenha os centrais Fernando Couto e Jorge Costa. De resto, nove novidades no 11, com Espinha na baliza, Costinha à direita, Beto no meio, Rui Jorge à esquerda e Conceição, Sousa mais Capucho no apoio à dupla Sá Pinto-Pauleta. É a equipa B? É mais a C, de Conceição. Aos 35’, é o toma lá-dá cá com Beto, Sousa e Jorge Costa antes do dois-um entre Rui Jorge e Pauleta. O avançado entra pela esquerda e faz um cruzamento em esforço. Como a bola bate em Rehmer, descreve um arco caprichoso. Kahn é apanhado em contrapé e já não chega a tempo para impedir o 1-0 de Conceição, de cabeça, embora o tenha acertado forte e feio, ao ponto do herói nem sequer ter festejado convenientemente o feito.

CONCEIÇÃO ALEMANHA 2000

Muito bem, um-zero ao intervalo. A segunda parte promete. Humberto Coelho mantém os onze, Ribbeck substitui Rink por Ballack. É precisamente o recém-entrado, brasileiro naturalizado alemão, quem perde a bola no meio-campo português. Corta Costinha. Atrasa para Capucho. Passe profundo para Pauleta. A Alemanha recua. Sá Pinto pede a bola uma vez. Não é atendido. E desmarca-se para a esquerda. Pauleta prefere Capucho. Com o parte de fora do pé, o portista muda de flanco para Conceição. O passe vai com força a mais. Conceição demora a controlar. Quando o faz, junto à linha lateral, tem muuuuito terreno para desbravar. Sem demora, avança por ali fora sem que ninguém o trave. Só Hamann se atravessa no caminho e, pobre coitado, leva um nó cego com uma jiga-joga de pernas. À entrada da área, Conceição pega na bola com o pé esquerdo. Linke atira-se de carrinho, desesperado. Matthäus olha esbugalhado, menos desesperado. Kahn é o mais calmo deles todos. Esta aqui é fácil, pensa, e agacha-se. Poissss, não o suficiente. A bola, rasteira, entra por baixo das luvas. Caos.

CONCEIÇÃO ALEMANHA 2000

O que é um hat-trick? Na Fórmula 1, é quando um piloto ganha o GP com pole position e volta mais rápida (Michael Schumacher tem 22, o dobro de Jim Clark). No hóquei no gelo, é para o autor de três golos. Se forem consecutivos, é comum serem festejados com uma “chuva” de chapéus e bonés atirados pelos adeptos (o recordista é Wayne Gretzky, 52). No futebol, é quando se marcam três golos. Com nuances, claro. Há o hat-trick puro e duro, sem nada a acrescentar, há o hat-trick clássico (para quem o faz de forma consecutiva sem outros marcadores pelo meio) e também o hat-trick perfeito (para quem o faz com o pé direito, o pé esquerdo e de cabeça). Ora bem, Conceição já tem um de cabeça e outro com o pé esquerdo. Só falta o pé direito. Habemus tempo? Uyyyy, muito. Minuto 71. Capucho entretém-se com a bola, colado à linha lateral, na esquerda, e aventura-se pelo meio de Hässler e Nowotny. Até aqui, tudo bem. Quando se intromete Matthäus, alto lá e pára o baile. Sá Pinto não liga a nomes e ganha um ressalto, devidamente aproveitado por Capucho. Abre para a direita, onde Conceição domina, olha para Kahn e atira rasteiro. “Às vezes, irrito-me comigo mesmo”, desabafa o herói do hat-trick perfeito.

NUNO GOMES TURQUIA 2000

O intervalo está a chegar. É só mais um minuto e já está. Turquia joga com dez. O central Alpay é expulso com vermelho directo aos 30’, numa embrulhada com Fernando Couto e Jorge Costa na área portuguesa. A bola já está longe do raio daquela acção quando o árbitro holandês Dick Jol interrompe e mostra o cartão vermelho. Assim mesmo, directo. Sem contemplações. Voltamos ao início, o intervalo está a chegar. Conceição corre desalmadamente pela direita e ganha, em esforço, o canto em despique com Hakan Unsal. Figo prepara a bola e atira para a marca de penálti, onde Couto cabeceia para o corte do capitão de Ögun. Há ali uma série de pontapés para o ar, até Okan dominar mal. Disso se aproveita Costinha para meter o pé meio a medo e isolar Figo na direita. O cruzamento deste é primoroso para o interior da área. A bola bate uma vez no chão, o que dá tempo para Nuno Gomes preparar o cabeceamento, fora do alcance do guarda-redes (um pouco à imagem daquele 1-1 de Sá Pinto à Dinamarca no Euro-96).

NUNO GOMES TURQUIA 2000

Entre o 1-0 de Nuno Gomes aos 44 minutos e o intervalo, há um sem número de jogadas perigosas, entre um encosto de JVP a rasar o poste e o penálti de Couto sobre Arif. O mesmo Arif encarrega-se do remate e Vítor Baía adivinha-lhe os intentos. Na recarga, Hakan Sükür permite defesa tranquila do capitão português. Acto contínuo, intervalo. Ufff, agora sim, descanso. Na segunda parte, aos 56’, acaba-se o suspense com o 2-0. Canto ganho por Conceição. Marca-o Figo para allívio de Ögun, de cabeça. A bola vai para o nosso meio-campo e é aí que Dimas faz um impressionante slalom ao serpentear por entre três adversários antes de entregar para Paulo Sousa. O suplente de Costinha lateraliza para Conceição. Daí para Figo. O extremo mete o turbo, mete a bola por um lado e vai buscá-la pelo outro. Hakan Unsal tropeça e deixa de importuná-lo. Com tempo e espaço, Figo faz uma Laudrupada: olha para um lado (JVP) e passa para o outro (Nuno Gomes). É golo, claro.

NUNO GOMES FRANÇA 2000

No mesmo dia que Figo (Sporting) impressiona Jorge Valdano no Santiago Bernabéu para a Taça UEFA, Couto é apelidado de “Gullit defensivo” pela imprensa italiana e Rui Costa já é um deus na Fiorentina, um jovem de 18 anos estreia-se a nível profissional e marca um golo decisivo. Nuno Gomes de seu nome. Estamos a 13 de Setembro de 1994 e o Boavista bate o Mypa 47, no Bessa, para a Taça UEFA. Lançado por Manuel José ao intervalo, Nuno só precisa de 17 minutos para dar a vitória:  segura a bola na entrada da área, supera o conhecido Hyypia com uma simples mudança de velocidade e atira a contar. Minuto 17, é isso? Oui. Deschamps faz um passe para fora. Baía marca o pontapé de baliza, Costinha cabeceia para a frente e Figo arranca pela esquerda. No way. Thuram e Vieira cercam-no. É melhor recuar. Rui Costa. Depois, Abel Xavier. À sua frente, Conceição. Da direita para o meio, o herói do 3-0 à Alemanha divide o lance com Petit e a bola perde-se num ressalto. Deschamps tem tudo controlado. Ou não. Conceição mete o pé e Nuno Gomes nem pensa duas vezes: à entrada da área, remata em queda com o pé esquerdo. Out of the blue. Está mais para o bleu. Barthez nem se mexe.

RONALDO GRÉCIA 2004

Luiz Felipe Scolari é o homem eleito pela federação liderada por Gilberto Madaíl para dar a volta à imagem da selecção nacional, altamente suja com os episódios (extra-)desportivos menos edificantes no Mundial-2002 – o mesmo que coroa precisamente o brasileiro como campeão sem sequer um empate. É ele o “cara”. Será? No jogo de abertura do Euro-2004, no Dragão, o seu onze não dá uma para caixa. Daí que se mudem duas peças ao intervalo: Deco por Rui Costa e Ronaldo por Simão. O jovem de 19 anos acaba por fazer o penálti do 2-0 (atropela Seitaridis a fazer a dobra a Rui Jorge) e redime-se no último minuto de descontos com um golo de cabeça, na sequência de um canto marcado por Figo. E provocado pelo mesmo Figo. O guarda-redes Nikopolidis opõe-se com galhardia. Figo corre para a bandeirola do lado esquerdo do ataque português e marca com o pé direito, em arco, para fora da área. Nikopolidis esboça uma saída, Ronaldo entra como um furacão e fixa o 2-1.

MANICHE RÚSSIA 2004

Na ressaca do desastroso 2-1 com a Grécia, opta-se por uma mudança drástica na defesa. De um jogo para o outro, só um do quarteto (Jorge Andrade) se mantém. Todos os outros três saem, por opção técnica: Miguel por Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho por Couto, Nuno Valente por Maniche. No meio, Deco substitui Rui Costa desde o primeiro minuto. Ronaldo, esse, continua no banco – é Simão o titular (ainda). E é sobre ele que Sennikov comete aos seis minutos uma falta evidente (ele é pernas e mãos, espécie de vale tudo). Figo bate o livre na direita e um defesa russa afasta. Maniche recupera e entrega para Deco, que se livra de Izmailov, avança até à entrada da área antes de fazer um cruzamento-remate para o primeiro poste. Quem está lá? Maniche. Adiantado em relação a Evseev, trava a bola com o pé esquerdo e coloca-a a jeito para o direito. O remate em queda sai colocado, junto ao poste de Ovchinnikov, sem hipótese de reacção.

RUI COSTA RÚSSIA 2004

Sem fazer um único remate à baliza de Ricardo, muito por culpa da superior categoria de Deco, que até obriga o seleccionador Yartsev a meter Aldonin na marcação individual do 20, os russos acabam a primeira parte sem Ovchinnikov. A culpa é de Loskov, cujo atraso é mal medido. Pauleta intromete-se e o guarda-redes sai da baliza para socar a bola. O árbitro não tem contemplações e exibe o cartão vermelho directo. Se com onze está difícil, imagine-se com dez. A verdade é que Portugal também não deslumbra por aí além e só chega ao 2-0 final aos 89 minutos, numa jogada fabricada por dois suplentes. Rui Costa parte ainda antes do meio-campo e desbrava caminho por ali fora. Às tantas, rasga a defesa com um passe para a esquerda. Ronaldo controla. Olha. E cruza de trivela, sem se importunar com a presença do capitão Smertin. A bola descreve um arco e apanha Ovchinnikov a meio caminho. Rui Costa alça da perna direita e encosta para o golo. Em plena Luz, a casa de sempre do maestro.

NUNO GOMES ESPANHA 2004

Scolari ainda não está realmente satisfeito. Vai daí, faz só mais uma alteração com a saída de Simão. Quem entra? Ronaldo, óbvio. O extremo ainda conta com a ajuda de Miguel para dar cabo dos rins a Raúl Bravo uma e outra vez. Será o jogo da sua afirmação na selecção. Daqui em diante, nunca mais será suplente. E de resto? Bom, Pauleta continua a zeros. Antes de fazer qualquer tentativa de remate à baliza de Casillas, o avançado vê um amarelo por mão na bola que o afasta de um possível jogo nos quartos-de-final. Talvez por isso é substituído ao intervalo por Nuno Gomes. E é o 21 quem nos garante o primeiro lugar do grupo num belo remate de fora da área. A jogada começa em Deco, claro. E continua em Figo. O capitão solta de primeira (e de calcanhar) para Nuno Gomes. De costas para a baliza, aproveita o desnorte dos centrais Helguera e Juanito, provocado pela desmarcação de Figo na diagonal, e vira-se sem demora. No quadradinho seguinte, atira forte e cruzado com o pé direito. A bola entra junto ao poste, sem hipótese para Casillas. O Estádio José Alvalade vai abaixo com o inédito quatro-em-um: vitória, qualificação, primeiro lugar e adiós Espanha.

POSTIGA INGLATERRA 2004

Um, dois, três. Bastam três minutos para a Inglaterra silenciar o Estádio da Luz. Bola longa do guarda-redes David James, cabeceamento para trás de Costinha a deixar Jorge Andrade fora do lance e desvio inteligente de Owen à saída de Ricardo. Acto contínuo, Scolari (que eliminara esta Inglaterra de Eriksson no Mundial-2002) é apanhado a saltar do banco para apelar à calma. Sem palavras, só com gestos. À Eusébio em 1966. Ou Figo em 2000. A selecção assenta arraiais e parte à procura do empate. Que só chega aos 83 minutos, numa altura em que Portugal joga sem o capitão Figo, substituído por Postiga. E não é que é o avançado do Tottenham o autor do 1-1. Nuno Valente começa o lance com um lançamento para Nuno Gomes. A bola perde-se por ali e é Maniche quem a recupera. Nuno Gomes, de novo. Rui Costa. Deco. Simão avança pela ala esquerda e cruza com o pé direito contra o corpo de Beckham. No ressalto, Simão ajeita a bola e cruza com o pé esquerdo. No meio dos centrais Campbell e Terry, o cabeceamento de Postiga é perfeito. E indefensável. Extra time, here we go.

RUI COSTA INGLATERRA 2004

Segunda parte de um prolongamento jogado a mil à hora, bola cá, bola lá. Aos 109’, o central Campbell adia o 2-1 de Postiga. A Inglaterra responde, Portugal defende com categoria. Ricardo Carvalho lança o contra-ataque na direcção de Ronaldo. Como o lateral Gary Neville vem na sua direcção, o extremo solta a bola para Deco e este para Rui Costas. Atenção, ainda estamos no nosso meio-campo. A partir daqui, já não. Rui Costa dá um toque na bola com o pé direito. E outro. E mais um. Um, dois, três, quatro. A bola obedece-lhe cegamente. Quando Rui Costa vai dar o quinto toque, Phil Neville intromete-se. Ou, vá, tenta. O pobre lateral-esquerdo cai desamparado, sem força para o andamento do 10. Sem ninguém à sua ilharga, Rui Costa trava a jogada com o pé direito, olha para a baliza e aranca um pontapé memorável. David James estica-se todo, cheio de estilo. Nada feito, a bola entra sem mácula. É um golo de outro mundo. Onde? Em plena Luz, a casa de sempre do maestro.

RONALDO HOLANDA 2004

É um dia inesquecível para Reiziger. Como assim? Na meia-final entre Portugal e Holanda, em Alvalade, o pobre lateral holandês apanha Ronaldo pela frente e nunca atina com a marcação por um segundo que seja. É um martírio de princípio a fim. Ou melhor, só até aos 69’, altura em que Scolari substitui Ronaldo por Petit. Sai aplaudido, pois claro. Porque sim. Porque joga em casa (no duplo sentido, Sporting e Portugal). E porque abre o caminho para a vitória. À terceira malandrice na cara de Reiziger, ganha um canto. Deco saca uma bola curva perfeita e Ronaldo aproveita a aversão dos holandeses na marcação individual para saltar sozinho e cabecear para as redes de Van der Sar, seu futuro companheiro no United. Nas celebrações, tira a camisola. E leva cartão amarelo. Na Alemanha, as deputadas Evelin Schoenhut-Keil e Margareta Wolf, do Partido “Os Verdes”, insurgem-se contra a rigidez das regras da UEFA. “Acabem com os cartões amarelos e, em vez disso, deixem os jogadores mostrarem os seus troncos atléticos. Não conseguimos perceber por que motivo um peito masculino pode ser considerado chocante.”

MANICHE HOLANDA 2004

Atenção, muita atenção: é um golo do além. A jogada começa muuuuuito cá atrás, com Miguel. O lateral ganha asas e solta-se, da linha lateral para o meio. Leva consigo dois holandeses. Antes de ser apanhado pela dupla, Miguel atrasa de calcanhar para o capitão Figo e este, num abrir e piscar de olhos, liberta para Maniche. Atenção, muita atenção: a bola já está no lado esquerdo. De cabeça, Maniche isola Ronaldo. Adivinhe quem está nas covas? Pois é, esse mesmo. O pobre do Reiziger. Com espaço, Ronaldo liga o turbo e cruza para o interior da área, onde Stam se antecipa de cabeça a Pauleta. Está tudo ainda a celebrar o canto, quando, de repente, a bola já lá mora. Isso, dentro da baliza de Van der Sar. Sem perder tempo (as câmaras até filmam o seleccionador Dick Advocaat visivelmente incomodado com o à vontade dos portugueses), Ronaldo marca-o o mais depressa possível para Maniche. O que faz o médio do Porto? Ajeita a bola e atira do meio da rua, junto ao bico da área. É um pontapé intencional, cheio de força e efeito. Van der Sar, provavelmente o único holandês atento ao lance desde o início, estica-se todo mas, qual quê?, aquilo é golo. Ponto.

PEPE TURQUIA 2008

A escola Scolari dá que falar. Somos vice-campeões europeus em 2004 e atingimos as meias-finais do Mundial-2006. Quando chegamos ao Euro bicéfalo (Áustria e Suíça), somos temidos não só pelo jogo bonito mas também pela capacidade de chegar cada vez mais longe. A Turquia que se cuide, continuamos com fome de glória. Aos 16 minutos, um cruzamento sensacional de Simão encontra a cabeça de Pepe. É golo. O central festeja-o pelo campo fora. E não repara na bandeirola levantada por um dos fiscais-de-linha. Bof, fora-de-jogo. Certo, certíssimo, nada a dizer. É insistir que isto do favoritismo tem o que se lhe diga. Olá se tem. A comprová-lo, duas bolas ao poste, uma de Ronaldo (38’) e outra de Nuno Gomes (50’). À terceira é de vez? Claro que sim. Vai que é tua, Pepe. O central recebe de Ronaldo e mete o turbo para passar por entre dois turcos. Depois o terceiro. Segue-se a tabelinha primorosa com Nuno Gomes, a entrada na área e o remate seco, vitorioso, antes de ser arrancado do chão pelo carrinho impedioso de Emre Asik.

RAUL MEIRELES TURQUIA 2008

Com 1-0 no marcador, Portugal continua a carregar como se nada fosse. É vê-los, a eles (nós, queremos dizer), a atacar sem parar. Numa dessas incursões galopantes, Ronaldo segue pela esquerda e cruza perfeito, perfeitinho para Nuno Gomes. O capitão salta bem e cebeceia melhor ainda. O guarda-redes Volkan Demirel faz de conta e respira de alívio: a bola bate na trave e sai de campo. Uffff – é vê-los, a eles (turcos), a respirar de alívio. Calma, ainda faltam uns minutos.

(…)

E, pronto, chegámos aos 90. Calma, ainda faltam uns três minutos. No último instante, toda a Turquia acampa no nosso meio-campo e, de repente, permite o contra-ataque liderado por Ronaldo. Ele avança como se fosse um extremo, com a bola controlada como se fosse um iô-iô, e vê Moutinho solto na cabeça da área. O passe é bem medido e Moutinho deixa passar (a bola e um defesa turco) antes de endossá-la a Raul Meireles, à saida de Volkan. Com a baliza aberta, está desbravado o caminho para o 2-0. Fácil mais fácil não há.

DECO REP. CHECA 2008

Há bom ambiente no túnel de acesso ao relvado. Cech sai da sua bolha para ir falar com Paulo Ferreira, o nosso lateral-esquerdo. Então, quem é o direito? Bosingwa. Quando o minuto do jogo marca o 7, Deco pega na bola na linha do meio-campo. Olha para a frente e não vê ninguém. A obstruir-lhe o caminho. Vai daí, arranca cheio de vontade. Já está perto da área quando lateraliza para Ronaldo numa espécie de “agora, vá, resolve tu”. O 7 dá de primeira para o capitão Nuno Gomes e este devolve-lhe de calcanhar à entrada da área. Rozehnal está a dormir em pé e deixa-se antecipar por Ronaldo. Quem não está pelos ajustes é Cech que se sai dos postes para cortar o intuito (e a bola) com os pés. Sorte a nossa, Deco recupera-a sem se esforçar. Chama-se a isto ressalto. Segue-se um cambalacho, mais parece um jogo de crianças. Cech quer roubar o protagonismo, Deco não deixa e ganha outro ressalto. E mais um, a Jankulovski. Por fim, golo. Daqueles às três tabelas, a especialidade de Deco.

RONALDO REP. CHECA 2008

Sionko só tem 1.71 metros de altura. No deve e haver, só ganha a um português: Moutinho (1,70). Pois bem, é Moutinho quem faz marcação cerrada a Sionko nos cantos. Num deles, Plasil marca-o com conta, peso e medida para o voo rasante de Sionko. O cabeceamento é fulminante, a bola entra no meio da baliza do desamparado Ricardo. Se o 7 checo marca, o 7 português tem de fazer o mesmo. Ou não? Claro que sim. Ronaldo esforça-se. E muito. Dois remates à figura e um outro para defesa inesquecível, todos antes do intervalo. Na segunda parte, a alegria do golo. E tudo começa num canto dos checos. Ujfalusi cabeceia ao primeiro poste e a bola passa à frente da baliza sem que mais ninguém a toque. Alívio (e pontapé de baliza) para Ricardo. Chuto longo, na direcção de Ronaldo. Boa recepção, como sempre, e passe atrasado para Moutinho. Antes de levar com os pitons de Baros por trás, tem tempo e visão para dar jogo à direita, onde Deco se assume como maestro. Com Plasil nas covas, Deco serve Ronaldo de bandeja, à entrada da área. O pontapé de primeira é forte e indefensável.

QUARESMA REP. CHECA 2008

Empate nos cantos, 6-6. Nos cartões amarelos, 1-1. Nos vermelhos, 0-0. Até nas faltas, 15-15. Entrámos no primeiro e único minuto de descontos para o fim. É só aguentar mais um pouco e estamos apurados para os quartos-de-final à segunda jornada, como na fase de grupos do Mundial-2006. A bola é lançada para a esquerda do ataque dos checos, onde Sionko é figura. Pepe rouba-lhe o protagonismo e é carregado em falta. Pronto, aqui a República Checa já ganha 16-15. Nem acaba de soar o apito do árbitro Kyros Vassaras e Bosingwa atira lá para a frente, ainda com Pepe no chão, de braços abertos. A marcação rápida do lateral-direito é bem vista proque apanha toda a selecção checa em contrapé. Disso se aproveita Ronaldo para se isolar. Na cara de Cech, o capitão (Nuno Gomes entretanto saíra e cedera a braçadeira) dá para o lado. Com a baliza mais que aberta, Quaresma nem remata. Aqui é tão-só um passe para as redes. Mais uma vez, um golo nos descontos.

NUNO GOMES ALEMANHA 2008

O começo até é promissor. Aos 20 minutos, Bosingwa liberta-se das amarras e aventura-se pelo lado direito. Na hora agá, cruza para a área e Deco está indeciso entre dar na bola com a cabeça ou o pé. Como tal, vai com o joelho mesmo. Lehmann nem sabe o que fazer. Só se limitar a seguir a trajectória, por cima da trave. A Alemanha anota a ousadia e reage com a categoria aliada à eficácia que se lhe reconhece. Com dois golos: um de Schweinsteiger, outro de Klose. Em quatro minutos, Portugal é abanado como nunca. E agora, o que fazer? Scolari substitui Raul Meireles por Moutinho (31’). É Meireles quem dá o aviso, com um remate torto (38’). E é Meireles quem inicia o ataque do 2-1, ainda antes do meio-campo, aos 40’. Simão, acossado por Podolski, prossegue a jogada com um passe na diagonal para Ronaldo, desmarcado na esquerda. Mertesacker ainda vai lá, mas falha a intercepção. Descaído para um lado, Ronaldo remata para o outro. Lehmann não se deixa enganar totalmente e defende com a ponta dos dedos para o lado. Na recarga, o oportuno Nuno Gomes acerta de primeira, perante a proximidade de Mertesacker, e aquece o ambiente.

POSTIGA ALEMANHA 2008

Em desvantagem, Portugal acerca-se mais da baliza de Lehmann e até consegue assustá-lo. Como aos 56’, quando Pepe atira de cabeça ligeiramente por cima. No banco, Scolari vai que vai para festejar antes de se sentar com os braços flectidos por cima da cabeça, meio amuado, meio decepcionado com aquela perdida. O que dirá então do 3-1 de Ballack? Salto no ar de Ricardo e cabeceamento do capitão alemão. Dois golos de diferença, de novo. E agora? Felipão chama Nani, primeiro, e Postiga, depois. Curiosamente (ou não), são estes dois quem constroem o 3-2, aos 86 minutos. Nani ganha coragem e vai direito à linha final pelo lado esquerdo. Quando dois alemães dão sinais de si, Nani recua e tenta outro caminho. Aparece então um terceiro adversário, é Borowski. Ultrapassado esse obstáculo, cá vai disto. O cruzamento é magnífico, direito para a cabeça de Postiga, com Metzelder nas covas. O tempo de salto do avançado é o ideal para Lehmann ir apanhar a bola dentro da baliza. Ficamo-nos por aqui, em 2012 há mais.

PEPE DINAMARCA 2012

Lviv é da Polónia de 1340 a 1772, da Áustria até à 1ª Guerra Mundial, novamente da Polónia em 1919, da URSS em 1939, da Alemanha de 1941 a 1944 e é cedida pelos Aliados à URSS no fim da última Grande Guerra. Hoje, 13 de Junho, a cidade Lviv é de Portugal. No autocarro do centro até ao estádio, os adeptos portugueses dão sinal de si e cantam o ai se eu te pego. Saber a letra é mau (para o cérebro), cantá-la em público com coreografia é absurdo (para a língua), repeti-la à exaustão é atroz (para os ouvidos), fazer dela um hino é sofrível (para o país de Quim Barreiros, Zé Cabra, Tony Carreira, Emanuel). Adiante, Portugal entra em campo para rectificar o 0-1 da Alemanha na primeira jornada. A Dinamarca faz-se difícil mas é fácil. Quer dizer, a Dinamarca é aquela selecção que sofre um golo de cabeça de Liedson sem que este tire os pés do chão, em 2009. Imagine agora um cabeceamento no ar de Pepe, a canto de Moutinho? Indefensável, pois está claro. Um-zero na sequência de um canto que não o é, porque Postiga é o último a tocar na bola em vez de um defesa nórdicos, como entende o árbitro escocês Craig Thomson.

POSTIGA DINAMARCA 2012

Se é Postiga quem origina, por assim dizer, o 1-0, damos-lhe sem pestanejar o Óscar de melhor actor secundário. Oito minutos depois, o avançado da Póvoa do Varzim tem obrigatoriamente de subir ao palco de novo para receber o de melhor actor. Começa Coentrão pelo lado esquerdo. O cruzamento largo é afastado de cabeça por Jacobsen, para fora da área. João Pereira recebe e dá logo para Nani, que pisa a área e cruza rasteiro para a boca da pequena área. À espera da bola, Postiga. Atrás dele, numa gigantesca falha de marcação, o dinamarquês Kjaer. O remate de primeira não dá qualquer hipótese a Andersen. A festa é enorme. Não só Postiga marca pelo terceiro Europeu consecutivo (como Nuno Gomes, por exemplo) e afasta as críticas como Paulo Bento rejubila e corre todo o banco com os punhos cerrados. A aposta no mesmo onze está a dar resultados. A alegria não dura nem sequer até ao intervalo, porque Bendtner finaliza de cabeça com a baliza à sua mercê (41’). É o seu quinto golo a Portugal.

VARELA DINAMARCA 2012

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
Selecção, Selecção
Dá cá um golão
Para eu ganhar

O dois-um está controlado. Aparentemente. Bendtner aparece nas costas de Pepe e empata aos 80’. E agora? Sai Meireles, entra Varela. A selecção cresce e empurra a Dinamarca, que abdica do ataque e até do meio-campo. Defende-se como pode. E mal. Aos 86’, Nani faz um cruzamento-banana com o pé direito e o capitão Agger corta de cabeça para longe. Ou assim pensa ele. O recém-entrado Mikkelsen não recebe a bola como convém e é ultrapassado pela vivacidade de Coentrão. O lateral corre mais um pouco pela esquerda e nem liga à mãozinha de Kvist a (tentar) importuná-lo. No coração, Postiga, Ronaldo e Varela. Quem? Quem será o feliz contemplado? Postiga está no primeiro poste, nada feito. Ronaldo estica o pé esquerdo, paciência. Sobra Varela. Falhado o primeiro remate com o pé esquerdo, a bola fica ali a rodopiar sobre si mesma, o que lhe permite um pontapé de ressaca, com o pé direito. É o golo do 3-2. Ganhámos. Nós e a Marcha do Alto do Pina.

RONALDO HOLANDA 2012

O laranja nasce da mistura de vermelho e verde, é verdade, mas é uma cor secundária. Talvez por isso, os holandeses apresentem-se de preto. A alternativa não é nada feliz, é uma cor que não costuma atrair pensamentos positivos. O seleccionador Van Marwijk, que ao longe parece-se com o avô cantigas mas menos sorridente, prescinde de um karateca (Van Bommel, curiosamente o seu genro) mas mantém o outro (De Jong), colocando finalmente o calmeirão Huntelaar a jogar com Van Persie lá na frente. Mas os melhores marcadores do campeonato alemão (Schalke 04) e inglês (Arsenal) raramente incomodam Rui Patrício. Só mesmo Van der Vaart, com um remate em arco. Enchemo-nos de brio e vamos atrás do empate, obtido pelo capitão Ronaldo. Honra seja feita, o mérito é todo de João Pereira. O lateral-direito sai da zona de conforto e flecte para o meio antes de meter o parte de fora do pé direito como quem não quer a coisa. Mas ele quer. E Ronaldo mais ainda. Golo para a selecção de vermelho e verde.

RONALDO HOLANDA 2012

A segunda parte evidencia Portugal mais cauteloso e uma Holanda menos cabeça no ar. E volta-se ao mesmo filme de quarta-feira, com a Dinamarca. Parece um jogo de casados com casados. Vá lá que Ronaldo entra em acção e aquilo transforma-se num solteiros vs. solteiros. Todos querem mostrar-se na arena de Kharkiv e acumulam-se os remates à baliza. Stekelenburg adia o 2-1 de Coentrão aos 66’ e também o de Nani aos 72’. O dois-um chegará por Ronaldo, numa jogada de contra-ataque por ele iniciada e a passar pelos pés de Miguel Veloso e Nani. Se o 1-1 é obra da visão de jogo de João Pereira, com um passe à Michael Laudrup com a parte exterior do pé e a olhar para o outro lado, o 2-1 é a equipa a funcionar às mil maravilhas e às três tabelas. Pobre Holanda. Eeeep eeeep Portugal. De um dia para o outro, da Polónia para a Ucrânia, a tradição mantém-se. Um português ganha a um holandês (Fernando Santos vs. Dick Advocaat, Paulo Bento vs. Van Marwijk) e um sportinguista é eliminado sem pena nem glória (Izmailov da Rússia, Schaars da Holanda).

RONALDO REP. CHECA 2012

Por um lado, nunca perdemos no primeiro dia do Verão (RDA-1959, Dinamarca-1966, México-2006 e Coreia do Norte-2010). Por outro lado, nunca ganhámos num jogo apitado pelo inglês Howard Webb (empate em Belfast, derrota na Dinamarca e empate na Bósnia). E agora? O meio é a virtude. Por um bilhete nas meias-finais, vale a pena explorar todo e qualquer caminho. Que o diga Ronaldo, com dois remates ao poste (para juntar aos outros dois vs. Holanda). Na segunda parte, os checos desaparecem do mapa e o nosso pressing é cada vez mais evidente. Por acaso, o golo solitário até nasce numa jogada quase inofensiva. A bola está com os checos mas recuperamo-la através de Nani, que liberta Moutinho na direita e este cruza para o interior da área. Ronaldo é mais rápido que o etíope Gebre Selassie, ultrapassa-o na curva e cabeceia com categoria. Cech ainda toca na bola mas não evita o golo, a derrota e a ida para casa. É o terceiro golo de Ronaldo ao checo, uma história iniciada com aquele fabuloso cabeceamento na final da Liga dos Campeões em Moscovo-2008.

NANI ISLÂNDIA 2016

O sorteio da fase final é generoso. O grupo reúne um estreante (Islândia) mais duas selecções sem expressão em Euros (Hungria, presente em 1964 e 1972; Áustria, só 2008). Juntas, as três somam menos de metade das sete participações de Portugal. Há condições para começar bem. E acabar melhor. Já lá vamos, calminha jejé. A estreia, para já, é em Saint-Étienne, com a tal estreante Islândia. À passagem da meia-hora, com o jogo controlado, os centrais Pepe e Ricardo Carvalho trocam a bola. Depois é Danilo. Depois Pepe, mais à direita. Segue-se um passe a rasgar o meio-campo para André Gomes. O toque de primeira para o lateral Vieirinha baralha os islandeses. A devolução para André Gomes é ainda mais fatal. Para eles, claro. O icebergue desmorona-se placidamente. André Gomes, com espaço, pisa a área e cruza ao primeiro poste, onde aparece sorrateiramente Nani a empurrar para o golo, com o pé direito, quase em queda, no risco da pequena área. Está quebrado o gelo, está feito o 1:0. O Euro é nosso.

NANI HUNGRIA 2016

O nulo com a insossa Áustria no Parque dos Príncipes é preocupante. Até porque Ronaldo falha um penálti, ao poste. Segue-se a Hungria, em Lyon. É estilo roda-bota-fora. Ou não, tudo depende do outro jogo do grupo entre Islândia e Áustria. De volta ao 4-4-2 vs Islândia, o início é cheio de dinâmica e Portugal ganhar cantos como nunca. Cinco nos primeiros 15 minutos. Segue-se o balde de água fria, 1:0 por Gera. Sem saber ler nem escrever, a defensiva Hungria coloca-se em vantagem. A euforia é enorme nas bancadas, onde os húngaros em larga maioria cantam (e saltam) sem parar. Portugal só os cala muuuuito perto do intervalo, aos 42 minutos. Passe de mestre de Ronaldo à Michael Laudrup para o espaço vazio. A bola percorre sozinha uns bons 25 metros. De repente, Nani, correndo como se fosse um extremo, atira para o empate, com o pé esquerdo. A desmarcação é impiedosa, Guzmics é batido sem apelo nem agravo. Na cara de Király, o 17 português não se intimida com as calças de fato de treino do keeper húngaro.

RONALDO HUNGRIA 2016

Está 1-1 ao intervalo. Santos mexe no onze, com Renato no lugar de Moutinho. Ainda o jovem está por tocar pela primeira vez na bola e já a Hungria festeja o 2-1, através de Dszudszák, a meias com André Gomes. Do livre do capitão húngaro, a bola bate no braço do português e trai Rui Patrício. Que galo, chi-ça. Portugal reage no quadradinho seguinte, por Ronaldo. Jogada na direita, troca rápida de bola entre Nani e José Mário. O cruzamento de João Mário para o coração da área apanha Ronaldo adiantado em relação ao central de marcação Lang. O que se segue é pura magia. O movimento, a sincronização e o toque perfeito de calcanhar. A bola demora quase uma eternidade a entrar na baliza, junto ao poste direito do elástico Király. Quando o faz, é uma explosão de alegria: 2-2 aos 50 minutos. O festejo é curioso, porque um fotógrafo apanha um estranho baile entre Ronaldo, João Mário e Nani. Para a história, sem sombra de dúvida.

RONALDO HUNGRIA 2016

À alegria segue-se a alergia. À calma, à tranquilidade, à bonança. Irra, é assim tão difícil? Mais uma falta para a Hungria naquela zona do 2-1. Prende-se a respiração, Dszudszák toma balanço e acerta na barreira. Uffff. Ou…? O capitão húngaro recupera a bola, flecte para o meio e atira forte para a baliza. A bola bate caprichosamente na perna de Nani e trai, de novo, Patrício. Estamos novamente afastados do Euro. Isso não pode acontecer. Simplesmente não pode. Seria a primeira vez. Adie-se esse trâmite, se faz favor. Ronaldo tem a palavra. E, já agora, Quaresma também. Aos 61’, Santos faz entrar o trivelas para o lugar de André Gomes. Nem um minuto depois, canto para Portugal. Marcado à maneira curta, por Quaresma. Para João Mário. Que devolve a bola a Quaresma. O cruzamento é perfeito, alto e em boa conta para a entrada da pequena área. Só ao alcance de cabeceadores exímios. Eis Ronaldo em todo o seu esplendor, com uma entrada fulgurante, sem dar hipótese ao marcador directo (Juhász) nem ao guarda-redes (Király).

QUARESMA CROÁCIA 2016

Empurrados para o terceiro lugar do grupo F por obra e graça de um golo islandês vs Áustria nos descontos, Portugal entra no lado mais soft do quadro de jogo a eliminar. Até à final, não apanhamos os favoritos Itália, Espanha, Alemanha, França e Inglaterra. Aparece-nos a Croácia, em Lens. O jogo é uma pasmaceira inacreditável, zero defesas dos guarda-redes até aos 90’. No prolongamento, Petric atira ao poste aos 119’. A recarga nem existe. A bola sai da nossa área e vai parar aos pés de Ronaldo, encostado à linha lateral. O passe para Renato é imediato, enquanto começa a correr como nunca, estilo Forest Gump. Já Renato vai nas calmas. No seu estilo inconfundível: peito para a frente, a olhar de frente, como quem controla a situação. Perto da outra área, lateraliza para a esquerda. Nani dá um chouriço na bola. Trivela ou remate, eis a questão? Seja como for, isola Ronaldo. O capitão atira de pronto, Subasic defende para o lado e aparece o suplente Quaresma a cabecear para a baliza vazia. Vale tanto com um golo de ouro.

RENATO POLÓNIA 2016

Ronaldo, Renato, Moutinho, Nani e Quaresma. Pelo meio, Patrício (que defesa, chi-ça). É música para os nossos ouvidos. Seis heróis portugueses na qualificação para a nossa quinta meia-final da história do Euro em mais um jogo sem um pingo de emoção. Até à hora dos penáltis, é claro. Aí, alto lá e pára o baile. O coração bate mais forte e a cabeça anda à roda. Começámos pelo fim porque o resto é de uma pobreza franciscana. A começar no golo aos 100 segundos. Cédric ajuíza mal o lance e permite a intromissão de Grosicki. O seu cruzamento apanha toda a defesa portuguesa em contrapé e o capitão Lewandowski encosta o pé xxl para o golo. É o 1-0, Portugal entra a perder. E agora? Durante minutos, largos minutos, nada. Portugal não sabe o caminho da baliza de Fabianski e, às vezes, evita-o com exageradas trocas de passes. A ausência de ideias tem um fim aos 33 minutos, quando Renato tabela com Nani à entrada da área. O jovem de 18 anos, em estreia no 11 de Fernando Santos, recebe o pé direito e manda bem com o esquerdo. A bola entra na baliza num ver-se-te-avias, sem hipótese para Fabianski. Golaço.

RONALDO GALES 2016

A história de Gales é secular. Os rapazes jogam entre o mal e o assim-assim desde 1876. É a terceira selecção mais antiga do mundo, a seguir à inglesa e à escocesa – só para se perceber bem a distância de uma realidade para a outra, a primeira equipa nacional de Portugal remonta a 1921, quase meio-século depois. De participações em fases finais, só uma: o Mundial-58 – só para entender bem a distância de uma realidade para a outra, Portugal acumula 13. A diferença faz sentido na meia-final em Lyon. Ao intervalo, 0-0. Na segunda parte, Gales desaparece do mapa e é Portugal quem dá espectáculo. Aos 50 minutos, o 1-0. Marca Ronaldo. Marca de Ronaldo. Made in, queremos dizer. O salto é prodigioso, qualquer coisa como 2,88 metros. Ninguém o apanha, após canto da esquerda de Guerreiro. Além do salto grande, enorme, gigante, xxl, a proeza de ter sido o 9.º golo de Ronaldo em Europeus. Apanha o rei Platini, líder isolado desde 1984, num outro Euro em França. É obra da coincidência.

NANI GALES 2016

Gales, repetimo-nos: eis a surpresa do Europeu. Ao todo, três vitórias e uma derrota, vs Inglaterra aos 90’+2. Na frente, um jogador com golos em todos os jogos da fase de grupos (Bale), companheiro de Ronaldo no Real Madrid. Nos oitavos, 1-0 à Irlanda do Norte. Nos quartos, 3-1 à favorita de virada. Nas meias, Portugal é demasiado forte. Prova-o o salto especial (e espacial) de Ronaldo no 1-0 e o salto de peixinho de Nani no 2-0. Entre os dois lances, distam apenas três minutos. Outro canto na esquerda, bola para a molhada. Um defesa galês afasta o perigo, apertado por Renato. A bola sobra para fora da área. Ronaldo ajeita-a para um lado, depois para o outro. Decide-se então pelo remate (enrolado) com o pé direito. O guarda-redes está atento e vai defender, só que Nani intromete-se com um mergulho para a frente. O desvio é fatal para Hennessey.

ÉDER FRANÇA 2016

Santos confia no seu instinto. De quem? No dele. E também no de Éder. Aos 109 minutos da final, Moutinho ganha a bola na raça a Griezmann e o ressalto cai para o lado de William. Daí para Quaresma, de primeira para Moutinho, de primeira para Éder. Lindo. De costas para a baliza, o 9 liberta-se de Koscielny, enquadra-se com a marcação à zona de Umititi e toma lá disto ò Lloris. Sai-lhe um remate forte, com a bola a curvar para fora. O capitão francês estica-se todo e não a apanha. É o delírio. Em apenas 43 minutos de utilização no Euro (Islândia 6’, Áustria 7’ e França 30’), Éder deixa de ser o íman da maledicência e transforma-se em He-Man, o Master do Universo. E é vê-lo na zona mista a liderar a turpe, de telemóvel em riste, numa espécie de selfie-se quem puder, a cantarolar o hino oficioso “pouco importa, pouco importa, jogámos bem ou mal, vamos é levar a taça para o nosso Portugal”. Éderzito, o do golo mais importante de sempre de Portugal.

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