Great Scott #405: Quem decide mais jogos por 1:0 na história da 1.ª divisão?

Great Scott Mais 10/25/2021
Tovar FC

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Great Scott #405: Quem decide mais jogos por 1:0 na história da 1.ª divisão?

Manuel Fernandes (17)

Sarilhos. Dos grandes. E também dos pequenos. Vamos por partes: é natural de Sarilhos Pequenos e é um grande sarilho para os guarda-redes. Avançado com uma técnica fora do comum e um instinto pelo golo que lhe permite marcar os golos mais incríveis, da cabeça aos pés, Manuel Fernandes nasce para o futebol. Garantia da visionária Justina Tavares. “O meu filho há-de jogar no Sarilhense e, depois, quando for mais crescidinho, há-de ir para a CUF antes de finalmente entrar no clube de que todos gostamos cá em casa, o grande Sporting.”

Pim pam pum, que previsão, que precisão. Dona de uma taberna e ainda agricultora, Justina cultiva o gosto pelo futebol e acompanha o filho nas manhãs desportivas. Ao contrário do pai Manuel Tavares Fernandes, fragateiro e, por isso, mais ausente das lides familiares. Daí que Manel tenha sofrido um choque violento muito cedo, aos 11 anos de idade, com a notícia da morte repentina da mãe. Passa então a viver na companhia das duas irmãs mais velhas, praticamente segundas mães. Por essa altura, já tem o diploma da quarta classe e aventura-se na carreira profissional. “Porque o futebol não dura sempre e um homem deve estar prevenido, quero tirar um curso suplementar no INEF [Instituto Nacional de Educação Física] para poder usufruir da minha vida como comerciante ou industrial depois de penduradas as chuteiras.” Chuteiras, quais chuteiras? Nesse tempo, Manel ainda joga com ténis banais nos terrenos baldios com quem lhe aparecesse à frente. E, às vezes, a bola até nem é a figura principal. “Havia sempre cenas escaldantes nesses jogos, muita canelada e umas bofetadas à mistura. Havia um miúdo mais arisco que os outros, era o Gomes. Mas tudo acabava em bem e a verdade é que acabámos por jogar juntos nessas peladas que durava todo o dia, fizesse sol, fizesse chuva.”

A amizade transita para o 1.º Maio Sarilhense, o seu primeiro clube a sério. Equipado de verde e branco. “Ainda hoje me lembro muito bem da estreia, como juvenil. Ganhámos 4-0 ao Alcochetense e marquei dois golos. Aliás, também marquei dois golos na estreia pela CUF, ainda pelos reservas, num 2-1 ao Luso no Campo de Santa Bárbara. E, já agora, anotei três golos na estreia pelo Sporting, num 5-3 à Académica.” Estreias é com ele. E não só. Manuel Fernandes é pau para toda a obra e o salto para a fama dá-se logo aos 20 anos de idade, já ao serviço da CUF. “Nunca mais me esquecerei. Era nosso treinador o senhor Fernando Caiado e jogávamos com o Porto, no Lavradio. Se ganhássemos, íamos pela primeira vez às competições europeias. Estávamos no último minuto e o resultado era de 0-0. Foi quando o Capitão-Mor me fez um passe de cabeça e eu, atento, antecipei-me a dois defesas para cabecear o 1-0. Digo-o sem vaidade, foi um golão.” Na época seguinte, Manuel estreia-se a marcar na UEFA, ao Kaiserslautern, na então RFA (derrota da CUF por 3-1). Para trás, o hat-trick ao Leixões (7-1)  e a estreia na selecção nacional, lançado por José Maria Pedroto, em Goiânia. E para a frente? Uma catrefada de golos, como os quatro à Olhanense (7-2), na despedida pela CUF no Barreiro.

Despedida? Isso mesmo, está na hora de assinar por um grande. É o Sporting quem ganha o concurso de Manuel Fernandes para substituir o argentino Hector Yazalde, Bota de Ouro (melhor marcador da Europa) com 46 golos. De suspeito a herói, é um ápice. Nem dura 90 minutos a eventual desconfiança. É o tal hat-trick à Académica. Nessa época de estreia pelo Sporting (1975-76), há mais quatro desses, vs U. Tomar (4-1), Braga (4-1), Leixões (3-0) e Académica (3-3). Todos, todos em Alvalade. É a sua casa até 1987, Nesses 12 anos de leão ao peito, ganha os campeonatos nacionais em 1980 e 1982 mais as Taças de Portugal em 1978 e 1982 (comete a proeza assinalável de marcar nas duas finais do Jamor, sempre o 2-0, vs Porto e Braga). Pelo meio, 433 jogos oficiais e 255 golos. Estabelece-se como segundo melhor marcador de sempre da história do Sporting, só atrás do insuperável Peyroteo. Das grandes tardes proporcionadas ao lado de outros artistas da bola como Jordão, Keita e Oliveira, uma é eterna. A dos 7-1 ao Benfica, claro.

É o inesquecível 14 Dezembro 1986. Nessa tarde de chuva, um dilúvio de golos em Alvalade. Ao intervalo, só 1-0. No final, 7-1. À sua conta, Manuel Fernandes marca quatro vezes (quatro!) e entra definitivamente para a história dos dérbis. Além da barrigada de golos, Manel só não entra na fotografia do 3-1 (canto de Mário Jorge, toque de Litos ao primeiro poste e encosto de Meade). É dele o remate para a defesa incompleta de Silvino e recarga vitoriosa de Mário Jorge, tanto no 1-0 como no 4-1. Incrível. Só visto, contado nem se acredita. Quando Vítor Correia apita para o fim do jogo, o lateral-direito Gabriel é o primeiro a apanhar a bola de jogo. Aparece-lhe o capitão Manuel Fernandes e o argumento é avassalador. “Disse-lhe que a minha filha Cláudia fazia dois anos nesse dia e queria dar-lhe a bola como uma prenda de aniversário.” A bola, assegura-nos Manuel em 2018, está bem e aconselha-se. E o Sporting 1986-87? Menos bem. Na ressaca desse 7-1, a equipa de Manuel José passa seis jornadas seguidas sem qualquer vitória e acaba o campeonato em quarto lugar. No final da época, a improvável limpeza de balneário com a saída de Manuel Fernandes, goleador, capitão e alma do Sporting.

“Não me deixaram acabar a carreira como eu sonhava, em Alvalade.” Então porquê? “O treinador do Sporting era um inglês [Keith Burkinshaw] que disse publicamente que já não contava com o Manuel Fernandes. Foi o pior que me podiam ter feito. Uma coisa é chamar-me à parte e dizer-me isso, outro, completamente diferente, é dizer publicamente através dos jornais, que foi isso que ele fez. Na altura, chamei a atenção dos dirigentes para essa situação mas ninguém fez nada. Oito dias depois, o mesmo treinador disse o mesmo, numa outra entrevista. Pensei… ‘bem, aqui não me safo.’ Na altura, o Fernando Oliveira, presidente do Vitória, já me andava a sondar e tranquilizou-me a dizer que tinha lugar no seu Vitória. ‘Está descansado que vens para aqui’, disse-me.” Meu dito, meu feito. Um ano em Setúbal, outro clube de verde e branco.

“Assinei pelo Vitória mas a transferência ficou 15 dias em segredo. Só ao fim de duas semanas é que foi tornada pública. Lembro-me perfeitamente de chegar a acordo com o presidente na quinta dele e os primeiros treinos até foram aí, com o Roger Spry [preparador físico inglês da confiança de Malcolm Allison, o treinador do Vitória]. Então com 36 anos, Manuel Fernandes faz a última época da carreira, com um total de 16 golos (um deles ao Sporting, aos 24 segundos) em 28 jornadas. Alcança então a marca dos 485 jogos na 1ª divisão, ainda hoje um recorde nacional, à frente de Sousa (483) e João Vieira Pinto (476).

E outros recordes, nada? Calma, têm de me deixar acabar de escrever: Manuel Fernandes é o melhor marcador do campeonato nacional 1985-86. Penafiel (5 golos), Aves (1), Chaves (2), Braga(1), Académica (0), Belenenses (1), Portimonense (0), Boavista (0), Marítimo (2), Vitória SC (0), Vitória FC (1), Covilhã (1), Benfica (0), Salgueiros (1), Penafiel (0), Aves (1), Chaves (0), Braga (3), Académica (1), Belenenses (0), Portimonense (2), Boavista (1), Porto (0), Marítimo (0), Vitória SC (0), Vitória FC (2), Covilhã (3), Benfica (1) e Salgueiros (1).

Que grande salganhada, o que vem a ser isto? Manuel Fernandes com mais golos (30) que jogos (29) numa época irrepetível. Mesmo assim, isso não lhe garante um lugar nos 22 convocados de José Torres no Mundial-86, no México. Estamos a 19 Abril 1986. Portugal está na fase final de um Mundial 20 anos depois e cai o pano sobre a 1.ª divisão. O Porto, cidade, está em festa. O Porto, clube, ganha 4-2 ao Covilhã e sagra-se campeão nacional (no ano seguinte, seria campeão europeu), enquanto o Boavista vence o Benfica por 1-0 e vai à Taça UEFA. Em Lisboa, o Sporting deManuel José derrota o Salgueiros de Humberto Coelho por 2-1, com mais um golo de Manuel Fernandes. O capitão dos Sporting é o melhor marcador do campeonato, interrompe uma série de três Botas de Prata seguidasde Gomes e recebe a ingrata notícia da exclusão do Mundial. De pontas-de-lança, a selecção leva a dupla Gomes (20 golos pelo FC Porto em 1985-86) e Rui Águas (10 pelo Benfica). Juntos valem tanto como Manuel Fernandes.

A seu favor, os 30 golos. Contra, a idade (34 anos) e uma determinada resposta. “Na primeira jornada, o Sporting ganhou 6-0 ao Penafiel e marquei cinco golos. Fui convidado pela RTP para participar no ‘Domingo Desportivo’. Uma das últimas perguntas do comentador foi o que eu achava da selecção. Disse então que já estava a caminho dos 35 anos e que seria talvez a hora de dar oportunidade aos mais jovens. Mas disse sem segundas intenções. Bom, daí em diante aproveitaram-se disso para justificar a minha ausência.”

E à medida que ia marcando golos? “Nunca mais fui convocado pelo Torres. E o adjunto dele era o Marinho, meu grande amigo, que jogou comigo no Sporting. Houve até uma reunião com os três em que todos nos sentámos e chegámos a um entendimento, mas as convocatórias iam saindo e eu nunca fazia parte delas. Portanto, quando chegou o dia em que me afirmei como melhor marcador do campeonato [30 golos contra 25 de Paulinho Cascavel, do Vitória SC] já sabia do meu destino. Apesar de o Manuel José [treinador do Sporting] ter dito publicamente que eu devia ir ao Mundial e de eu mesmo ter também dito que estava sempre disponível para ajudar o país, como, aliás, se provou depois do Mundial, em que joguei cinco vezes por Portugal e até marquei à Suíça.”

E como é que vê os jogos do Mundial-86, na televisão? “O Sporting, incomodado com a minha ausência, pagou-me uma viagem ao México. Lá, vi o jogo de abertura entre Itália e Bulgária, os três de Portugal e depois ainda aproveitei para fazer férias perto de Guadalajara.” Escapa-se de Saltillo. O que é isso? Uma grande salganhada. Que não se explica por números. Ao contrário de Manuel Fernandes, o homem de Sarilhos Pequenos. E grandes.

Eis os 17 jogos do 1:0 de Manel (atrás, só com 13, Jordão e Gomes)

1971-72

CUF 1:0 FC Porto

Académico 0:1 CUF

1972-73

CUF 1:0 Montijo

Montijo 0:1 CUF

1975-76

Sporting 1:0 CUF

1978-79

Ac. Viseu 0:1 Sporting

1979-80

Beira-Mar 0:1 Sporting

1981-82

Sporting 1:0 Portimonense

Espinho 0:1 Sporting

1982-83

Portimonense 0:1 Sporting

1983-84

Varzim 0:1 Sporting

Espinho 0:1 Sporting

1984-85

Sporting 1:0 Benfica

Vitória SC 0:1 Sporting

1985-86

Sporting 1:0 Vitória FC

Sporting 1:0 Aves

1986-87

Sporting 1:0 Elvas

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