Great Scott #635: Único fotógrafo a apanhar a pega entre Sá Pinto e Rui Águas no Jamor?
António José
Aos tombos, a qualificação de Portugal para o Mundial-98: empate na Arménia (com penálti falhado no último minuto), derrota na Ucrânia, vitória sobre a Albânia, outra sobre a Ucrânia e 0:0 vs Alemanha na Luz. Oito pontos em 15 possíveis.
Em Março 1997, alimenta-se o sonho em Belfast, vs Irlanda do Norte. Nove da manhã do dia 26, o primeiro da concentração. Sá Pinto chega ao Estádio Nacional, vestido à civil. Ninguém poderia adivinhar as suas motivações – o avançado do Sporting não fora convocado e poderia, por exemplo, vir desejar boa sorte aos companheiros para corresponder ao convite de Joseph Wilson, então a desempenhar funções na Federação Portuguesa de Futebol.
Nada disso, nas primeiras horas do dia, Sá Pinto lera no Record e ouvira na TSF que o seu afastamento da selecção se devera a actos de indisciplina ocorridos em dois particulares, um vs França, em Braga, outro vs Grécia, em Atenas.
Visivelmente fora de si, Sá Pinto chega ao Jamor numa carrinha Volvo azul-escura, pergunta pelo seleccionador nacional e segue o caminho do túnel de acesso ao relvado. Os primeiros relatos coincidem na violência do avançado, traduzida em dois socos antes de dois ou três pontapés com Artur Jorge no chão, a tentar levantar-se.
Todos convergem na tese de que não houvera qualquer diálogo prévio: Sá Pinto dirige-se a Artur Jorge, agride-o e insulta-o. A informação é mais relevante do que à primeira vista parece: cinco meses se respondera a uma provocação ou um ano se agira por livre iniciativa.
Quando já está de saída do local, Rui Águas, adjunto de Artur Jorge, surge do interior das cabinas e bate com a mão no vidro da viatura de Sá Pinto. Os ânimos voltam a aquecer, com confrontos físicos agora visíveis e registados por um repórter fotográfico na parte de fora do estádio.
O acto de Rui Águas, imprudente por reacender um incêndio que já fora extinto (Sá Pinto seguiria viagem para Alvalade, de viagem até Marrocos), viria a ser um dos mais citados pela defesa do jogador. A selecção treina-se com Artur Jorge molestado na face esquerda do rosto.
No fim da sessão, as primeiras reacções oficiais aos acontecimentos. Alberto Silveira, vice-presidente da FPF para as Seleções, dá o mote da revolta e considera a agressão como “um dos acontecimentos mais graves da história do futebol português”.
Sem dúvida, é grave, gravíssimo. O problema é que Sá Pinto ainda joga nessa época 1996-97. Faz seis jogos, quatro para a 1.ª divisão e dois para a Taça de Portugal. Chega o Verão, o mercado de transferências e a FIFA suspende-o por um ano.
Um fotógrafo há atento à cena de pancadaria entre Rui Águas e Sá Pinto, já depois dos chutos e pontapés em Artur Jorge. Chama-se António José e trabalha no ‘Manhã Popular’, um jornal matutino ainda em fase de testes e sem qualquer número publicado.
Natural de São Vicente da Beira, em Castelo Branco, o fotógrafo de 45 anos tem por hábito chegar à notícia antes do tempo. ‘Fui fazer trabalho para arquivo, porque ainda estávamos a fazer números zero. E como gosto de chegar cedo aos serviços – é mesmo um ponto de honra – tive a sorte de apanhar toda a cena. Se a segunda cena de pancadaria não tivesse acontecido, não haveria imagens e a repercussão do acontecimento seria muito mais fraca.’
O segundo repórter a chegar ao local do acidente é da SIC. Dois minutos depois já é muuuuito tempo. Quando toma conta da ocorrência, até deita as mãos à cabeça. Quando António José lhe diz das fotografias, um responsável da SIC entra em contacto e pede-lhe um preço. ‘Pedi-lhe 100 contos e ele achou razoável.’
O jornal Record também lhe compra as fotografias e, claro, faz manchete. Ao todo, três – todas com Sá Pinto e Rui Águas em amena cavaqueira, ladeados por um Rui Caçador em dificuldades para conter o ímpeto dos dois.
António José é fotógrafo desde os 13 anos, quando compra um caixote 6×9 no Porto, a troco de 160 escudos. A primeira fotografia é a estátua do cavalo à frente da Câmara Municipal do Porto. E a primeira fotografia publicada é sobre as comemorações do 8.º centenário de São Vicente da Beira, a freguesia-natal, no jornal ‘O Século’, em 1973. Trabalha depois no Diário, n’A Capital (ganha 400 escudos por cada fotografia publicada) e no Jornal do Benfica até chegar à Manhã Popular, onde é editor da fotografia.