#64 Elvas 1987-88
Coldplay. Música, maestro.
Coldplay. Quando ligamos a Luís Castro para falar do Elvas 1987-88, o treinador do Botafogo só tem 30 minutos. ‘Tenho de ir ao concerto dos Coldplay.’ Que movida, a de Luís Castro. ‘Hoje é dia de folga, descansei um pouco e agora vou sair do apartamento.’ Até que horas? ‘Isso agora.’ E parte-se a rir.
Vamos lá aproveitar a meia-hora, Luís Castro aclara a garganta e toma lá disto. ‘Fui expulso na primeira jornada, não me aguentei à bronca. Empatámos 0:0 com o Penafiel e jogava a lateral-direito. Era mais físico que técnico, dava muita porrada, só assim me safava, sobretudo nos jogos com os grandes. Lembro-me perfeitamente das críticas do Diamantino, do Benfica, a meu respeito. E também me lembro claramente de um penálti num jogo com o Sporting, em Elvas, cometido sobre um brasileiro chamado Silvinho. Mal entrou em campo para o lugar do Litos, a quem eu tinha feito a vida negra, ele virou-se para mim e ‘vou chutar sua bunda do campo em menos de cinco minutos’. Sabe uma coisa, ó Rui? Fui expulso quatro minutos depois, com duplo amarelo, por um penálti sobre o Silvinho. Por sorte, o Paulinho Cascavel falhou o penálti e o Elvas manteve o 0:0.’
Para início de conversa, nada mau. Luís Castro é um conversador nato e, adora o Elvas. ‘A tranquilidade do Alentejo, nunca vivi como lá em Elvas. E ainda me lembro do cheiro a campo no regresso a casa dos jogos fora. O aroma do Alentejo tem muito encanto, tal como as suas gentes, os seus hábitos e a sua culinária.’
O Elvas acaba a época por descer de divisão, embora termine em 15.º lugar num campeonato com 20 equipas. Só que é uma época em que a 1.ª divisão emagrece bastante e há cinco despromovidos. O Elvas é o primeiro dessa lista. Ou o último, depende da perspectiva. A verdade é que desce e nunca mais sobe. ‘Seja como for, época boa para o Elvas, sobretudo em casa, éramos valentes.’
A primeira vitória é um claro 4:1 vs. Espinho de Quinito (e ainda Walsh lá à frente) e o resultado é construído na primeira parte. Na semana seguinte, 3:1 no São Luís, em Faro, com mais três golos antes do intervalo. O Elvas entra então numa espiral negativa e passa sete jornadas seguidas sem o sorriso da vitória. A derrota vs. Boavista é difícil de digerir, com golo de Rubens Feijão nos descontos. Também há aquele 3:2 vs. FC Porto em Elvas, com sete cartões amarelos e um vermelho para o onze alentejano.
O regresso às vitórias é na Covilhã, numa tarde em que o guarda-redes Domingos se lesiona aos 71 minutos e é substituído por Jorge Almeida. O mesmo Domingos já se lesionara duas semanas antes, vs. Varzim, e fora substituído por Vítor Pontes (esse mesmo). No regresso ao Algarve, outra alegria com 1:0 em Portimão, cortesia Mário Gomes aos 88’.
O início da segunda volta é fraco e disso mesmo se dá conta pelos zero golos marcados nas primeiras seis jornadas. Salva-se o 0:0 vs. Benfica em Elvas, a um sábado, por compromisso europeu em Bruxelas (do Benfica, claro está). O jogo seguinte em casa é vs. Vitória SC, outro 0:0 a gerar muita polémica dentro e fora do campo por penálti de Miguel sobre Bartolomeu. O carro da RTP quase é abalroado por uma multidão em fúria.
Nas Antas, o Elvas apanha quatro-secos e assiste ao nascimento goleador de Domingos, substituto de Raudnei. Na jornada seguinte, a primeira vitória da segunda volta, e que vitória: cinco sem resposta ao Covilhã, com bis de Bartolomeu.
À falta de quatro jornadas, e na ressaca de uma derrota pela margem mínima nos Barreiros, o Elvas entra na linha de água e acumulam-se os problemas. A vantagem dos alentejanos é o factor casa, com três jogos. Os dois primeiros acabam como começam, 0:0 vs. Sporting (o tal do penálti falhado por Cascavel) e Braga. Segue-se o 1:0 de Clóvis em Chaves e o 3:0 sobre Salgueiros. Em vão, o Elvas desce à 2.ª divisão porque todos os outros em risco pontuam e safam-se à última hora, casos de Portimonense (1:1 vs. Espinho), Farense (0:0 no Bonfim) e Braga (1:0 vs. Chaves).
‘Rui, é como lhe digo: foi uma experiência enriquecedora e nunca mais me esquecerei da época seguinte, na 2.ª, com o Mourinho Félix e, depois, o Carlos Cardoso. Há um jogo engraçado no José Alvalade em que somos eliminados da Taça por 6:0. Ao intervalo, já há cinco e eu digo ao mister Carlos Cardoso que não me estou a sentir bem. A resposta dele ainda hoje me faz rir: ‘Nem pensar, agora vais jogar para completar toda a merda que fizeste na primeira parte’. E lá fui eu.’
(a negrito, os jogos fora)
Penafiel 0:0
Rio Ave 0:2
Espinho 4:1 Beto Vidigal-2 / Alberto / Horácio
Farense 3:1 Bartolomeu-2 / Basaúla
Académica 1:1 Bartolomeu
Benfica 0:1
Belenenses 2:3 Clóvis / Bartolomeu
Vitória SC 1:1 Clóvis
Boavista 1:2 Bráulio
Varzim 0:0
FC Porto 2:3 Basaúla / Bráulio
Covilhã 2:1 Mário Gomes / Basaúla
Vitória FC 1:1 Beto Vidigal
Portimonense 1:0 Mário Gomes
Marítimo 1:1 Oliveira (pb)
Sporting 0:0
Braga 2:2 José Soeiro / Bráulio
Chaves 0:2
Salgueiros 1:2 Mário Gomes
Penafiel 0:0
Rio Ave 0:0
Espinho 0:6
Farense 0:0
Académica 0:0
Benfica 0:0
Belenenses 1:2 Mário Gomes
Vitória SC 0:0
Boavista 0:2
Varzim 0:0
FC Porto 0:4
Covilhã 5:0 Bartolomeu-2 / Clóvis-2 / Gregório pb
Vitória FC 0:1
Portimonense 3:0 Bartolomeu-2 / Basaúla
Marítimo 0:1
Sporting 0:0
Braga 0:0
Chaves 1:0 Clóvis
Salgueiros 3:0 Horácio / Clóvis / Bartolomeu